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Arnaldo brinca com as coisas
Marcos Augusto Gonçalves - Folha de S. Paulo - 22/11/1992
Terceiro livro de Arnaldo Antunes, depois de "Psia" e "Tudos", 0 recém-lançado "Coisas" é bastante diferente dos outros dois: é um livro para crianças — ou pelo menos para uma criança, Rosa, a filha que comparece com desenhos e como musa fértil de uma agradável, divertida e interessante aventura de texto/prazer.
Arnaldo Antunes, independentemente de juízos de valor, se filia a uma área da cultura contemporânea —não só no Brasil, mas aqui também, e bem— que é o passeio pelos interstícios de repertórios "altos" e "médios" e o trânsito por territórios diversos da criação.
Compositor e vocalista dos Titãs, poeta ligado às experiências de visualização do texto (vem desenvolvendo uma viva colaboração com Augusto de Campos), autor de capas de discos e outras aventuras gráficas, Arnaldo tem funcionado também como uma espécie de animador cultural de um campo de jovens artistas que transitam pelo repertório texto-imagem, do vídeo à gráfica — e um exemplo disso e o "Atlas", coleção de poemas e trabalhos visuais lançada há poucos anos que, em sua flagrante irregularidade, não deixou de ser uma iniciativa de referência para tribos de São Paulo.
Recentemente, num depoimento ao "Mais!", sobre Torquato Neto, Arnaldo ressaltava no anjo torto tropicalista uma multiplicidade de interesses e atividades com a qual dizia se identificar. Da mesma forma, foi admirador—e amigo—de outro multi-ativista, o letrista, poeta, tradutor e ensaísta Paulo Leminski.
São todos artistas mais ou menos difíceis de se classificar (embora Lemisnki fosse certamente mais poeta do que outra coisa, como foi Vinícius, que era, no entanto, mais letrista do que o paranaense— e seria preciso aqui pensar em Waly Salomão e em Antonio Cícero) e de se julgar: provocam, quando não uma dispersão, ao menos um desfocamento no olhar de leitores e críticos. É sintomático que Vinícius tenha tido sua poesia subvalorizada pela atividade de letrista e "showman'' e agora comece a ser reavaliado.
O Arnaldo que se apresenta em "Coisas" não é o "wild" compositor-vocalista dos Titãs. É um autor evidentemente marcado pela experiência da paternidade e entregue a sinuosidade da lógica infantil.
"Coisas" é uma coleção de textos que, em comum, trabalham com a graça dos paradoxos tão próprios da poeticidade da linguagem infantil—e da "infantilidade" da linguagem poética: "Neto e neta são netos no masculino. Filho e filha são filhos, no masculino. Pai e mãe são pais, no masculino. Avô e avó são avós". Ou: "Mulheres tem dois peitos. Os homens tem um peito só". Ou: "Todas as coisas do mundo não cabem numa idéia. Mas tudo cabe numa palavra, nesta palavra tudo".
Podem-se fazer restrições à poesia de Arnaldo, pode-se considerar que há em seus livros um certo excesso, uma certa generosidade seletiva, mas é inegável que estamos diante de uma sensibilidade de artista, de uma personalidade interessantíssima e de uma imaginação livre, aberta, produtiva que trabalha para a elevação não para a mediocrização do ambiente cultural no Brasil.
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