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Arnaldo Antunes derrama economia verbal em “Tudos”
João Carlos Pedroso - O Globo - 26/06/1990
Arnaldo Antunes não quer só música. Quer música e poesia. Juntas ou separadas. Depois de lançar uma edição financiada por ele próprio ("Ou/e", 500 exemplares em 1985) e um outro trabalho pela editora Expressão ("Psia"), ele aproveita a temporada carioca do show "Õ Blesq Blom" (de seu grupo Titãs) para autografar "Tudos" na livraria Timbre hoje, a partir das 20h. O lançamento é da editora paulista Iluminuras e deve trazer algumas surpresas para quem gosta das letras que Arnaldo escreve para sua banda. Existem semelhanças de ritmo e forma, mas o autor faz questão de ressaltar principalmente as diferenças.
— São preocupações estéticas diferentes que motivam cada trabalho — explica Arnaldo.
A poesia escrita proporciona uma maior dedicação à forma. No trabalho do titã Arnaldo, isto se reflete na distribuição visual de cada poema:
—Eu e minha mulher, Mariana Moreau, cuidamos de todo o planejamento gráfico do livro, detalhe por detalhe. Foram seis meses de trabalho. Me interesso muito pela características visuais do poema. E lógico que existem algumas semelhanças com meu trabalho de letrista. O ritmo, as repetições, a economia verbal. por exemplo — aponta.
Arnaldo comparece ao lançamento carioca ainda sentindo o esforço dispendido em São Paulo na última terça-feira. Ele lembra que apareceu tanta gente, no dia do lançamento, que chegou a ficar com dores musculares de tanto dar autógrafo.
Alem de admiradores dos Titãs, amigos e curiosos em geral, muita gente boa da área literária também compareceu para prestigiar:
—Foi ótimo, eu não parava de dar autógrafos.
Arnaldo garante que não recebe qualquer tipo de ataque por ser "um roqueiro que também quer fazer poesia":
—Não há resistências. Ou, se existem, não chegam a mim. Este tipo de visão parte de um preconceito do tipo "o rock é uma forma de arte vulgar, a poesia é culta". De acordo com essa corrente de pensamento quem faz uma coisa não pode fazer a outra. Enfim, cada um deve saber qual o "seu devido lugar".
Esta teoria do "cada macaco no seu galho" (a definição é de Arnaldo) não se aplica ao titã. Ele acredita que pode e deve transitar nas duas — ou até em mais, se for seu desejo — áreas com tranquilidade, sem dar a mínima para o preconceito. Até porque incentivo não falta:
—O pessoal sério de literatura não pensa assim e muitos deles gostam realmente do meu trabalho — garante o poeta e compositor.
Arnaldo não descarta futuras incursões pela prosa de ficção ou até roteiros de cinema e texto de teatro. Tudo lhe interessa e depende de tempo e oportunidade. Principalmente tempo. O trabalho como músico deixa pouco espaço para uma maior dedicação aos escritos. Tanto é que faz tempo que ele não produz nada de ficção.
A prosa, nos últimos tempos, ficou reservada a esporádicas colaborações para jornais — artigos, em geral. "Não calhou", explica Arnaldo. Claro que este não é o único motivo. Existe um interesse específico em trabalhar as possibilidades da poesia, especialmente no campo visual. Um exemplo deste outro interesse pode ser conferida na belíssima capa de "Õ Blesq Blom" — também de autoria de Arnaldo.
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