Arnaldo experimental
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AR DA PALAVRA
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Alterar la conciencia, misión del arte, define el creador multidisciplinario Arnaldo Antunes
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"CREAR UN TERRITORIO ARTÍSTICO COMÚN ES ENRIQUECEDOR"
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Entrevista
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Entrevista
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Arnaldo Antunes e a palavra
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Entrevista
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Arnaldo Antunes e a palavra
Julio Cesar Caldeira, Renata De Grande e Ludmila V
Estado de S. Paulo – Zap!: 1999

Poeta, compositor, cantor, etc. Esse homem gosta de fazer com que as palavras virem poemas, os poemas (`as vezes) música, a música (`as vezes) livros e os livros, vídeo. Tudo assim, um código, várias linguagens. O grande barato de Arnaldo Antunes é simplesmente criar, seja lá para qual meio for. "Inclassificável", como explicou nesta entrevista, não seremos nós a escrever aqui que entrevistamos o "—-" Arnaldo Antunes. Mas, depois de lida, quem sabe, o caro leitor, não consiga entender quem é este inclassificável…

Você é considerado um dos poucos poetas concretistas desta nova geração. Como é o seu trabalho de poeta?

Eu acho que a minha poesia tem influências do concretismo mas não poderia ser classificada como poesia concreta. Acabam fazendo esta classificação, mas eu acho muito limitado ler a realidade sob a ótica de um movimento ou conceito. As coisas, vistas dessa maneira, ficam reduzidas. Tenho afinidade e admiração pelos poetas concretos e sou influenciado por suas obras, mas também tenho influência de outras áreas, como por exemplo, da tradição de letras de músicas da MPB, da cultura pop, do rock end roll e de outras áreas da literatura. Acaba sendo engraçado, pois, não tenho nenhuma pretensão de equiparar minha poesia com a dos poetas concretos. O trabalho deles é mais sofisticado. Tenho uma música no CD O Silêncio que se refere a mistura racial. Acho que define bem a forma como vejo a minha criação artística e, também,e o retorno disso: "somos inclassificáveis".

Este mês fizemos uma matéria sobre o Luiz Gonzaga. Inevitavelmente tivemos bastante contato com cultura regional, expressões que vem de determinadas regiões e que só se encontram lá. Emendando um pouco na pergunta anterior, pode se dizer que sua poesia é de São Paulo, ela nasceria em outro lugar?

Não sei dizer, é uma coisa difícil. Mas, sem dúvida, o fato de eu ter passado a minha vida toda em São Paulo é incorporado e devolvido como criação. A convivência com a cidade pode ser percebida mais nitidamente em alguns poemas e em outros menos. Algumas características das minhas músicas têm afinidade com São Paulo pelo fato da grande mistura que temos aqui. São muitas cidades em uma só, cada bairro é uma cidade diferente. Há muita informação nessa metrópole. Muitos imigrantes de lugares diferentes, muita mistura cultural, não há uma raiz e é com este aspecto que me identifico enquanto estou criando...

Existe diferença no processo de criação de uma poesia e no de uma música?

Não. Existe uma ponte entre as atividades. Geralmente, a produção já tem o seu destino meio certo. Já sei se é algo para ser cantado ou para ser publicado ou se é algo que traz junto uma idéia visual e pode se tornar algo gráfico. No entanto, há exceções. Pode haver contrabando de uma área para outra. Idéias que tive para um poema visual podem acabar como canção ou, até mesmo, animação. Há um território comum em todas os tipos de produção. Trabalho com a palavra em si e isto possibilita uma conversa entre as diferentes linguagens. Esta questão do trânsito de códigos entre diferentes linguagens é um terreno muito fértil.

Isso sempre te interessou, mesmo quando você não era um artista solo, a palavra?

Paralelamente aos Titãs fiz livros. Participei de exposições e publiquei três livros enquanto estava na banda: o Psia, Tudos e As Coisas. No momento em que saí dos Titãs tudo se juntou mesmo projeto que foi O Nome. A poesia e a música se juntaram numa terceira linguagem: o vídeo. A partir de então esses diálogos entre diferentes linguagens começaram a ser a cada vez mais constantes.

O que você está ouvindo ultimamente?

Estou ouvindo o disco do Lenine e tambem escrevendo o release (apresentação) do disco dele. Gostei pra burro. Gosto muito dessa rapaziada nova. Pedro Luiz e a Parede, o Rappa, Lenine, Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre, Carlinhos Brown. Esse pessoal faz uma mistura muito orgânica na música pop, com rítimos regionais e muita originalidade.

O que você acha das pessoas sempre ficarem procurando substitutos para grande nomes que nós já tivemos e ainda temos como o Gil, Caetano, Chico?

Esse pensamento de que o artista tem que se substituído por outros de uma geração mais nova é um pouco errado. Vários artistas que começaram nos anos 60 ainda estão aí produzindo um trabalho muito potente. O novo tem que conviver e não substituir. Existe essa expectativa, por parte da mídia, em descobrir quem é o novo Caetano, o novo Gil. Acho isso patético. Eles estão aí fazendo coisas maravilhosas e quem bebeu naquela fonte também está aí fazendo seu trabalho. A gente acha que o rock acabou, mas os Paralamas, os Titãs, Barão Vermelho estão fazendo seu trabalho nos anos 90 e convivendo com as bandas novas de hoje: Planet Hemp, Raimundos e outras. As coisas convivem. Acho que tem uma informação muito potente nessas bandas, principalmente as que eu citei, pois fazem um caldeirão de informações. O Chico Science trouxe, junto`a Nação Zumbi, uma informação muito interessante. O Lenine tem uma afinidade muito grande com aquilo. Carlinhos Brown também faz música de uma maneira singular. As coisas que me interessam são essas, o meu trabalho se identifica um pouco com essa leitura musical que você não precisa compartimentar numa estante. Uma leitura que está, na verdade, lidando com várias informações e que está tentando criar uma linguagem muito original.

O que você gosta de ler?

Eu leio muita coisa diferente, eu não gosto muito de responder isso porque acabo tendo que eleger algumas pessoas em detrimento de outras. Eu não tenho um poeta preferido ou um escritor preferido. Eu gosto de muita coisa diferente, então, fica complicado eleger. Li recentemente e achei muito interessante o livro do Augusto de Campos. O Augusto talvez seja o poeta que mais me impressione atualmente, no Brasil. Talvez seja ele o mais completo. Acompanho com muito gosto tudo o que ele produz. Agora tem muita coisa diferente. Eu li, por exemplo, o livro de sonetos do Glauco Matoso, achei muito bacana. De prosa eu li o livro do Mauro Pinheiro, o Aquidauana, e gostei bastante. Li a Cidade de Deus, de Paulo Lins, e achei muito interessante.

Paulo Leminsky?

Estou sempre voltando ao Leminsky. Fiz um texto sobre ele. Reli o volume de cartas nessa nova edição que saiu. Um grande autor, um grande amigo, tenho muita admiração por ele. Acho deslumbrante um volume póstumo dele que se chama Metaformose, é maravilhoso. Acho que tem o nível do Catatau, que é uma obra dele publicada em vida. Mas esse foi uma surpresa, eu não sabia da existência desse livro, quando saiu postumamente eu fiquei deslumbrado. Tem muita coisa. Agora estão saindo as obras do Borges. Tenho dado uma folheada nisso. Mas tem muita coisa. Na verdade, se pensarmos amplamente, não só em termos de Brasil, tem muita coisa. Eu falei as coisas que eu tenho lido recentemente. Tem um escritor moçambicano chamado Mia Couto que foi uma descoberta maravilhosa. Ele teve dois livros editados aqui pela Nova Fronteira. Li antes uma edição portuguesa, mas depois foi editado aqui Histórias Abençonhadas e Cada Homem é Uma Raça.

Quando você lançou o Silêncio, a mídia falou sobre um disco feito pensando no público. Como se na sua carreira solo, até então, você só tivesse feito música para um pequeno grupo capaz de entendê-la. Em tempos de indústria cultural a criação fica ameaçada?

Eu nunca me interessei em fazer uma coisa só para mim. Sempre tive uma intenção pop no que fazia, mesmo no Nome (primeiro trabalho solo). Eu trabalho com criação , desejo experimentar, questionar o gosto comum, ampliar e, de alguma forma, alterar a sensibilidade das pessoas. Porque só trabalhar no terreno da redundância não tem graça. O barato do pop é justamente falar para muita gente. É bom poder estar dentro desse registro, só que sempre mexer nesse limite que existe entre redundância e novidade. Não simplesmente repetir fórmulas estandardizadas. Durante o trabalho de dez anos que eu tive com os Titãs, a gente lidava com isso. Ou seja, era uma coisa feita para fazer sucesso, para falar com o maior número possível de pessoas, só que, inserindo alguma estranheza, alguma coisa que altere, de alguma forma, a sensibilidade das pessoas. Não só repetir o que todo mundo já conhece. Na minha carreira solo a intenção é a mesma. Tanto no Nome, quanto no Som ou no Silêncio. A mídia vem falando isso em relação ao meu trabalho. A cada disco que lanço ouço que está mais pop. Foi assim quando eu lancei o Ninguém, o Silêncio e por aí afora. Eu sempre quis fazer um produto pop. Sempre quis tocar no rádio, aparecer nos programas de televisão. Nunca pretendi ser marginal ou ser ouvido por pouca gente, nada disso. Agora, aconteceu que o Nome era um projeto que juntava poesia, música, vídeo. Vários códigos conversarem no mesmo projeto, foi um pouco traumatizante. A mídia não soube assimilar muito bem. E era também um projeto que, de certa forma, violentava a linguagem da canção, ia nos limites daquilo. Todo mundo ficou com uma imagem errada, como se eu tivesse me afastado do universo das rádios e dos shows. Desde que saí dos Titãs sinto quase como se fosse um começo de carreia. Estou conquistando um público a cada disco, cada lançamento vende mais que o anterior, toca um pouco mais no rádio, me possibilita fazer mais shows. Quer dizer, eu vou aos poucos sedimentando um chão para dar um próximo passo e a coisa vai crescendo devagar. Não são discos que venderam muito. Nenhum deles chegou a vender 50 mil cópias. Venderam pouco, mas na verdade estão construindo um caminho de carreira que acredito que possa ter continuidade. É isso que me interessa mais do que fazer um sucesso estrondoso. Eu acho que há um lado positivo nessa coisa de ir crescendo aos poucos.

Até que ponto, na sua opinião, vai o compromisso, a fidelidade de um artista com o público? Você pensa na maneira com as pessoas vão reagir?

O maior respeito que posso ter com o público é cuidar o máximo da elaboração da minha linguagem. É fazer o melhor possível nesse sentido. Não há como ceder e fazer uma coisa mais fácil só para ser melhor compreendido. Eu não fico pensando se vou ser compreendido ou não. Eu tenho que expressar o que me realiza artisticamente da melhor forma possível. Tento manter um padrão de elaboração no qual me exijo muito. Esse "me exigir" não se refere somente construção formal, mas também um cuidado que visa a emoção do ouvinte. Acho que isso faz parte da competência de uma canção: ser assimilado pela pele, perceber até que ponto aquilo é dançável. A funcionalidade disso não precisa estar distante do nível de elaboração. Por que as duas coisas não podem andar juntas? Isso é um mito que a indústria cultural cria. Por que você precisa ser medíocre para ser assimilado por um número enorme de pessoas. A gente tem que lutar contra esse tipo de preconceito e não reinterá-lo. Tento fazer o meu trabalho da melhor forma possível e claro que espero que aquilo atinja muita gente, mas não vou fazer algo que altere minha auto exigência só em função disso. É sempre muito imprevisível como aquilo vai chegar nas pessoas. De certa forma, eu tomo um pouco essa responsabilidade de sempre querer mexer com a sensibilidade das pessoas. De não me repetir ou repetir coisas que já estão sedimentadas. Agora, quero vender muitos discos, quero poder fazer show para muita gente mas se isso não acontecer, paciência. Espero que aconteça num próximo trabalho. Mas não existe concessão para isso.

Você gosta da idéia de ter fã?

Gosto. Adoro. Tenho fã - clube, dou a maior força, forneço material para eles trabalharem, encontro com eles quando dá. A gente se reúne e eles me contam o que estão fazendo. Agora vão produzir um site na Internet. É super legal, adoro receber as pessoas em camarim depois do show, falo com todo mundo, sempre dou autógrafo, nunca acho isso ruim. Minha convivência com isso é muito apaziguada. Isso toca na questão da responsabilidade com o público, porque, no meu caso existiu uma relação muito passional. No momento em que eu saí dos Titãs muita gente se sentiu traída. Mas aos poucos, sinto que, a cada trabalho, esse sentimento passional de traição, que grande parte do público dos Titãs teve em relação a minha saída, vai se apaziguando no coração das pessoas, conforme vão vendo que os Titãs continuam fazendo um trabalho legal sem o Arnaldo e que a carreira do Arnaldo também pode acontecer. E que elas podem acompanhar os dois trabalhos sem muito trauma ou que eu e os Titãs podemos nos encontrar normalmente nos palcos, como aconteceu no Acústico MTV, que a gente pode trabalhar junto em algumas composições, como as parcerias que aparecem no Volume Dois, assim como, com o Paulo (Miklos) e com Nando (Reis) no meu disco. A troca continua acontecendo e eu acho que tudo isso, aos poucos, vai assentando no coração das pessoas. Muitas pessoas acabaram tendo um sentimento negativo em relação a mim, por causa da minha saída. E, de certa forma, isso era inevitável. Acho que só o tempo para cicatrizar isso. Grande parte do público dos Titãs tem um pouco essa relação dificultosa com o registro do meu trabalho. Mas isso faz parte do inevitável. A gente muda as coisas para que fiquem melhores.

Quando você sentiu que devia, iria ou queria sair dos Titãs? Em qual momento você estava quando isso aconteceu?

Eu não sei dizer um momento específico porque foi um sentimento que veio amadurecendo dentro de mim durante meses. Fui convivendo com o desejo de sair e ao mesmo tempo um pouco em dúvida. Havia um trabalho sendo feito, a gente estava preparando um disco e eu, na verdade, fazendo um outro projeto, que era o Nome. E isso estava mais sedutor para mim que o trabalho com os Titãs. Realmente saí para fazer um outro trabalho, que eu já vinha fazendo. Durante muito tempo essas duas coisas conviveram conflituosamente e dividindo o meu tempo. Até que chegou uma hora que se tornou impossível e eu tive de escolher. Não havia mais tempo para me dedicar as duas coisas e já estava um pouco cansado de escolhas consensuais que o trabalho em grupo exige. Ou seja, só cabia parte da minha produção ali . Além disso, o desejo de fazer uma algo que me desse mais autonomia. Então, aquilo ficou amadurecendo durante meses em mim até que chegou uma hora que tomei a decisão.

Maduro o suficiente para você se sentir absolutamente tranqüilo em relação a decisão tomada?

Absolutamente tranquilo nunca é. Uma separação sempre tem os traumas de uma separação. Mas, na medida do possível foi bem assimilado por mim e pelos Titãs.

Você era muito a cara dos Titãs, não? Talvez por estar quase sempre nos vocais...

Na verdade, durante algum tempo, no começo da minha carreira solo, eu me incomodava um pouco com o fato de muita gente não saber que eu tinha saído dos Titãs. A lentidão da informação chegar até as pessoas… O fato de me verem na rua e perguntar como estavam os Titãs ou me chamarem de Titã, me irritava um pouco. Mas, acho que isso vem acontecendo cada vez menos. Embora, ontem mesmo, eu estava na porta de casa e uma pessoa passou e me disse ‘e aí, Titã?’. Acho que durante muito tempo isso ainda vai acontecer. Por outro lado, muita gente hoje em dia me reconhece como Arnaldo e tudo bem. No começo isso incomodava, mas, com o tempo, passei a ver isso com mais carinho. De certa forma, isso mostra como foi forte a minha imagem dentro dos Titãs e como foi importante aquela realização da qual eu me orgulho muito. Passei a ver isso mais com orgulho do que como algo negativo. Acabei até achando legal.

Uma vez , vi um show seu com a Orquestra Sinfônica, o Karnac e mais alguns músicos. E vi a sua reação, sempre quieto num canto do palco. Você é tímido?

Eu sou um pouco tímido e venho lidando com isso há muitos anos. Desde que...desde sempre, talvez. Mas, de certa forma, acho que trabalhar com música foi uma grande arma contra a timidez. É muito diferente o Arnaldo que sobe ao palco para cantar, do Arnaldo que está aqui conversando, do Arnaldo que vê televisão com a família. Cada situação exige uma adequação muito diferente uma da outra. Quando estou no palco, não represento papel algum. Sinto integralmente eu, só que é um eu que tem um sentimento catártico, baixa um santo que sou eu mesmo, mas que aqui, por exemplo, não faz sentido que haja. Existe essa divisão de personalidade, mas é muito saudável. Me alimenta muito fazer show. Quando fico um período longo sem fazer show, mordo parede, começo a ficar meio ansioso. Me nutro da energia do palco, é como um trabalho de descarregar determinadas energias que ficam guardadas. Antes de entrar no palco sempre me dá um frio na barriga, principalmente quando é estréia de show, Mas esse nervosismo se transforma numa coisa positiva. Entro meio trêmulo no palco, mas depois uso aquilo para me afirmar mais ainda. Aquilo vira segurança. No caso desse show da orquestra sinfônica foi uma coisa muito diferente. Eu nunca tinha cantando com uma orquestra na vida, era uma responsabilidade...Não fazia sentido eu me comportar como me comporta na maioria dos meus shows. Eu estava mais sereno.

Na carreira dos Titãs você já enfrentou grandes públicos. Mas na carreira solo, você também já tocou para muita gente. Como é chegar no palco e encontrar uma multidão na sua frente, só que, sozinho?

Não é muito diferente de quando eu estava com os Titãs. A minha postura de palco, a maneira de me relacionar com o público é muito parecida. A gente vai aprendendo a cada show, desde o comecinho até hoje. Quanto mais show você faz, mais você lida com aquilo. Não é uma coisa ensaiada, não ensaio nenhuma coreografia nem gesto. Chego e faço aquilo espontaneamente. A minha movimentação de palco, minha postura, minha atitude me leva a fazer aquilo que a música pede. Sempre aparecem coisas novas, ou coisas que eu faço normalmente, mas acabo repetindo e me aprimorando. É um jeito de lidar com a intensidade do show. É sempre muito forte lidar com a vibração de muita gente. Aos poucos, acho que a experiência de fazer muito show acaba contando.

Você gosta de dançar? Além de quando está no palco?
Eu sempre gostei de dançar, mas faz tempo que não danço.

Eu te perguntei isso porque a nossa música está ficando dançante, não que ela não fosse antes, mas agora está mais explicito isso. O que você acha disso, o que você acha do remix, essas coisas...

Eu acho a linguagem do remix muito interessante. Dá para fazer muita coisa. Acho que a linguagem do remix antecipou muitos procedimentos que, atualmente, são usados na linguagem normal de gravação de canção: edição em computador, que acabou se tornando um método de feitura de música popular mais corrente hoje em dia. É como se tivesse fazendo remix, mas ficou cada vez mais comum no processo de gravação de qualquer disco. Acho super interessantes esses processos de edição, de mapear a música, de abrir, mudar o plano, transformar tudo. É dub, não é. A linguagem do remix é do dub, só que, usado como releitura de canções. Sempre gostei de dançar, acho que o apelo da música sobre o corpo é muito importante. Inclusive a relação entre música e corpo deveria ser mais considerada pela crítica de música em geral. As pessoas, quando pensam em parâmetros para avaliar a qualidade artística de um disco ou de uma canção, nunca pensam em como aquilo bate no corpo, se aquilo é para dançar ou como aquilo arrepia. Porque punk fura bochecha? Porque heavy metal usa couro?. A relação entre música e a coisa orgânica do corpo é uma algo importante. Porque um reggae, quando é dançado, parece que está se lutando contra a gravidade? E no rock você vai a favor dela? Porque no psicodélico você faz outros movimentos? Tudo isso e o jeito de dançar deveriam ser mais considerados. Gosto de dançar, só não danço porque não tenho ido em raves e essas coisas. Mas sempre que surge uma oportunidade adoro dançar, no palco ou fora dele.

Porque "pop" virou sinônimo de coisas medíocres?

Pop é o termo mais abrangente que existe. Cabe tudo. Quando me pergunto que tipo de música eu faço, nem gosto de responder. Na minha música tem de tudo. Tem samba, rock, raggae, funk, baião. Acho que é música pop brasileira moderna. Dentro disso existem duas coisas: os gêneros musicais, que estão se misturando cada vez mais, e as ondas musicais, que a indústria fonográfica cria para ser substituída por outras. O rock dos anos 80 teve muito disso. Quando começaram os anos noventa, todo mundo disse que o rock tinha acabado, como se aquilo fosse um onda fonográfica de marketing que na hora que acaba, acaba. Mas o rock nacional vinha de antes disso, com os Mutantes, o Raul Seixas, Rita Lee e outras bandas. Aí teve o fenômeno, que foi auxiliado por uma onda de marketing e tal, mas depois acabou e o rock continua sendo feito, muita banda continua surgindo. A produção artística meio que independe dessas ondas. Acho que tem de ter espaço para tudo. No axé, por exemplo, o trabalho da Timbalada é absurdamente maravilhoso. Essa generalização é sempre complicada. Vivemos uma época de saturação da informação, tem muita gente fazendo disco e muita coisa acontecendo. Falta um pouco as pessoas acharem aquilo que as interessa e cavarem parâmetros para avaliarem, dentro desse mar de informação, o que realmente tem a ver.

Sobre a música do Lupicínio Rodrigues, Judiaria e o Silêncio, como foi o processo de produção delas?

Eu adoro Lupicínio. No próximo disco, quero gravar outra coisa dele. Acho ele um grande compositor, adoro ele cantando. Na época em que ele fez o trabalho dele, existia uma distância entre compositor e intérpretes. Depois acabou, mas, na época, existiam os grandes intérpretes como Chico Alves e Orlando Silva, e existiam os compositores que gravaram pouco, ou, muitas vezes, nem gravaram suas músicas. Lupicínio era um pouco assim. Eu acho ele o melhor intérprete de suas músicas. Tinha aquela voz pequena e era muito comovente na forma de cantar. As composições dele são maravilhosas. No caso da Judiaria, deu vontade de reler especificamente essa canção na forma de um rock’n’roll. Acho que ficou muito adequado pela própria violência da própria letra. O Silêncio é o resultado de uma parceria com o Carlinhos Brown, a gente compôs na Bahia. Eu tinha feito a letra e chamei ele para fazer algo em cima dela. Ele pegou a letra e já saiu cantando. Gravamos num cassete e eu trouxe para São Paulo. Quando estava gravando o disco, lembrei dessa música e a "rearranjamos". Acabou virando o nome do disco. Na gravação teve a partição do Brown, na percussão e um pouco nos vocais. Foi feito um remix por Dudu Marote, para isso eu gravei umas vozes novas e fizemos também uma versão acústica para tocar nessas rádios que são mais "light". São três versões que eu gosto muito.

Você tem parceria com ele?

O Tom Zé gravou no meu estúdio a trilha sonora que ele fez para o Grupo Corpo, chamada Parabelo. Ele me chamou para cantar uma das músicas, a Xique-Xique, que foi até incluída no último disco dele, o Com Defeito de Fabricação. A princípio ele estava só gravando a trilha. O estúdio é para meu uso pessoal, mas os amigos acabam usando também. O Brown teve lá uma vez também. Ele a Marisa (Monte). Mas, às vezes, rolam umas gravações, uns ensaios, umas jams, enfim. Eu gravei lá toda a trilha para um espetáculo do Grupo Corpo que deve estrear no ano que vem.

Algum projeto?

Estou pensando em publicar um livro com coisas minhas que já saíram na imprensa...

Muita coisa escrita?

Na verdade tem sempre muita matéria prima que eu acabei subtraindo um monte de coisa até ficar só o que interessa.

E quanto às parcerias com outros artistas?

Adoro compor com a Marisa. Tem muita coisa que ela faz em que deixa pronta a melodia e depois eu ponho a letra. Aí a gente se encontra e junta tudo. Às vezes a gente nos encontramos e fazemos na hora. Nosso último encontro foi na casa dela, estava até o Carlinhos Brown, e a gente fez umas coisas. Nesse jeito foi feito Amantes Cinzas, que o Carlinhos gravou no último disco dele...Tem umas coisas legais.
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