Prefácio do livro Doble Duplo
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Prefácio do livro Doble Duplo
David Byrne
09/1999

Prefácio

David Byrne, Nova Iorque, setembro de 1999


Um dicionário não julga quem o consulta. Se perguntasse a alguém, a qualquer um, o significado de uma palavra longa, obscura e complicada, julgar-me-iam culto ou esnobe, ou ambas as coisas e, igualmente, se perguntasse o significado de uma palavra elementar, simples, como "casa", "lá", "ninguém" ou "fim", provavelmente me tomariam por idiota, uma pessoa extremamente inculta, ou talvez apenas um estrangeiro. Mas o dicionário trata igualmente todas as minhas consultas. Nenhuma é mais profunda ou ridícula do que a outra. Sou tratado por esse livro como uma criança cujos pronunciamentos são, em geral, absurdamente simples e, ao mesmo tempo, cósmicos. É óbvio, por exemplo, que a palavra "lá" é mais surpreendente ou no mínimo tão desconcertante quanto uma palavra como "fenomenologia".

Arnaldo Antunes tem um pouco daquela qualidade característica do dicionário.

A qualidade de uma criança muito sofisticada, que nos pede para prestar atenção em expressões vocais, imagens, sons e textos às vezes simples e às vezes complexos... e pede que recebamos essas coisas com profunda inocência, porque aquela inocência é muito mais ameaçadora do que qualquer sofisticação. E também dá mais prazer. Dei com o trabalho de Arnaldo Antunes pela primeira vez num disco dos Titãs, o grupo pop de que foi parte importante por muitos anos.
Compreendi que havia "algo" nesse grupo quando perguntei a um amigo qual era o sentido do título do disco O Blésq Blom e ele me disse que não significava nada, mas que o som dos fonemas e das sílabas apetecia à língua. Mas tarde, topei com outro trabalho em que ele se envolvera - o projeto de um livro (Atlas - Almanak 88, 1988), que me presenteou junto com outro, Fachadas e Platibandas, de Anna Mariani, constituído de fotos de casas estranhamente futuristas, localizadas em cidadezinhas pobres do Nordeste brasileiro. Depois, vi seu vídeo e o disco que o acompanha, Nome, o que me deixou profundamente emocionado... parecia haver aqui outro "cosmopolita sem raízes", como os nazistas chamavam os judeus. Uma pessoa que não vê limites em seu trabalho. Música pop, poesia concreta, instalações, performance, videoarte, ensaios... ele se envolveu em todos esses campos e, embora eu não tenha visto ou ouvido tudo, o que vi e ouvi é concretamente bom.
No Brasil há uma tradição de songwriters (músicos-letristas populares), ligados a campos for a do pop, que são chamados de compositores, pois lá a música é parte importante da vida (estritamente falando, compositor é quem escreve música clássica). A geração do tropicalismo: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, os Mutantes e outros estiveram geralmente ligados a uma geração anterior, o modernismo (Oswald de Andrade etc), o movimento de poesia concreta (grupo Noigandres), bem como ao Cinema Novo, com os incríveis filmes de Glauber Rocha.

Isso foi no fim da década de 60 e no começo dos anos 70, durante a repressão militar que forçou alguns desses artistas ao exílio. Muitos desses artistas ainda estão ativos, mas aquele momento particular de fermentação e criação passou. Agora a repressão e a censura são de natureza diferente, econômica.

Da mesma forma que aqui nos EUA... a censura é exercida pelas forças do marketing, não por decreto do governo.

Arnaldo Antunes continua essa tradição inovadora, mas com um fio mais cortante, mais nervoso. Mais urbano, mais escrachado, mais global. No trabalho de Arnaldo sinto que ele não vê diferença qualitativa entre cultura elevada e popular... entre escrever rocks e publicar um livro de poesia concreta. Isto é sinal seguro de que os guardiões da cultura perderam controle. Um sinal de que os animais escaparam dos zôos culturais e institucionais onde eram mantidos, e agora estão se encontrando e se misturando... e quem sabe que tipo de estranhas criaturas nascerão.

Esta é nossa situação pós-industrial do século 20. É um mundo em que o texto não é mais rei. Como disse McLuhan, retornamos a uma sociedade pré-industrial de orientação oral e visual, em parte graças à nossa tecnologia e à comunicação de massas. Para nós, palavras funcionam tanto como imagens quanto pelo que dizem, não são apenas símbolos de algum significado externo, mas coisas em si. A televisão e a Internet são montagens de todo tipo de coisas. Imagens, textos, sons. Nós "lemos" esses sons, as texturas de uma publicidade, os gestos nas fotos, nos anúncios, ou de uma performance. Para nós, fazê-lo é instintivo, pois somos animais além de tudo, mas não há livros ginasiais de gramática que definam as regras dessa "linguagem". Com essa linguagem de formas e sons e imagens retornamos a uma espécie de sensibilidade pagã pré-alfabeto, onde todos os lugares, coisas e objetos têm vida, um espírito, e não só pessoas e animais. O mundo está vivo. Esse é o mundo que Arnaldo habita e está tentando definir. E é nosso mundo também.

De vez em quando, algumas das coisas que Arnaldo faz, uma canção por exemplo, pode tornar-se popular, vender muitos discos, ser considerada "comercial" em certo sentido, mas sinto que os impulsos por trás de todos esses vários tipos de trabalho que ele faz são mais ou menos os mesmos. Que para ele a música que se torna popular não tem maior ou menor valor do que esses fragmentos de texto/imagem. Um som é igual a uma palavra e a forma é igual a uma história. Por isso, esse livro pode ser considerado uma espécie de gramática, um dicionário, de uma linguagem que não está definida. Uma linguagem que estamos todos tentando aprender e falar, mas para a qual não temos instruções, nem referências. Aqui há um começo.


Prefácio escrito especialmente para o livro de poemas de Arnaldo Antunes Doble Duplo, lançado na Espanha.
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