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O receptivo
Arnaldo Antunes
14/05/1996

Uma vez Gil me disse que havia jogado o I Ching fazendo a seguinte pergunta: “O que é que sou eu, afinal?”. A resposta do oráculo recaiu no hexagrama nº 2, todo formado de linhas abertas — “O receptivo”, que tem como imagem “a terra” e como atributo “a devoção”.
A nitidez daquilo me impressionou, por ser tão próximo da forma como o reconheço, como o reconhecem, como vemos que ele próprio se reconhece. Talvez isso seja o que seja ser alguma coisa — o ponto onde todos esses olhares convergem.
Na verdade, a questão parecia se referir ao mais íntimo de seu íntimo. Mas em Gil isso não difere em nada da maneira como ele soa publicamente, de forma explícita, a cada canção, a cada verso de cada canção, a cada palavra de cada verso ou declaração; em cada palco, acorde, atitude.
Gil é o receptivo. Luz onde as sombras se assentam, e que lhes dá contorno. Clareza que abraça o mistério sem temor. O maleável. “Transcorrendo, transformando, tempo e espaço navegando todos os sentidos”. A natureza, o princípio feminino (“a porção melhor que trago em mim agora”), o que recebe.
É assim que as palavras se articulam nos encadeamentos rítmicos, melódicos, semânticos de suas canções. O “abacateiro” que atrai “acataremos”; “bárbara bela” que se torna “barbarela”, ali onde jeca total vê “Gabriela”; o vermelho da rosa no sorvete; o sonho e o fim do sonho ao mesmo tempo dissolvendo a noite e a pílula, da “boca do dia” à “barriga de Maria”; a “dura caminhada” na “cama de tatame”; o “baú de prata” porque “prata é luz do luar”; o “adeus” se dirigindo à “deusa”, com o deslocamento cinematográfico do “a”; o tempo que vai e onde vai dar, menina, do perpétuo socorrei.
Tudo parece fazer sentido na medida em que deixa o sentido se fazer. O casual aberto ao intencional aberto ao casual, como círculos concêntricos se expandindo a partir da pedra, atirada com mira sobre a água sem alvo. Água cristalina não porque reflete, mas porque corre. Onde a limpidez do sentido vem de sua adequação ao ritmo, à linha melódica; clareza vindo da fluência. Cadência.
Como na letra de Batmakumba (parceria com Caetano), que condensa tantos significados enquanto parece estar apenas traduzindo onomatopaicamente a batida do tambor. Ali onde a fala da tribo também faz dançar.
Gil deixa que as palavras se digam, se liguem umas às outras, imantizadas pela música, para dizer o que ele tem a dizer.
Que baixe o santo, que a musa cante, que o vento sopre, que desça a inspiração, que se creia na idéia de inspiração. Que se cumpra o pedido da “deusa música”, e se deixe “derramar o bálsamo, fazer o canto cantar o cantar”. Que o destino e a vontade, ação e inação, coincidam, colidam no mesmo gesto. “Mesmo porque tudo sempre acaba sendo o que era de se esperar”. Que haja fé, sem esforço, pois nenhum esforço possível pode gerar a `fé. Que a raiz seja a antena e o cesto a parabólica. Que descobrir seja inventar e que a meta dessa “metade do infinito” seja “simplesmente metáfora”.
Essa entrega, esse espírito aberto ao mundo, essa leitura pessoal da exigência de cada circunstância e sua transformação em auto-exigência, como traço da personalidade de Gil, acabaram se traduzindo, sem paradoxo, em intervenção radical, convicta, afirmativa das questões que foram compondo seu ideário. Gil teve sempre a coragem de dizer as coisas que acreditava nos momentos precisos. Seja ao cantar “miserere nobis”, ou “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”, ou “manda descer pra ver Filhos de Ghandi”; ou “quanto mais purpurina melhor”; ou ainda “sou um punk da periferia”, assim, na primeira pessoa — tocando pontos nevrálgicos de contextos muitas vezes adversos, aos quais respondeu com integridade e paciência. “Eu não sou essa quietude, eu sou a minha quietude, não a deles”, afirmava ele em 79, em entrevista ao Folhetim.
Sua quietude inquieta deu conta de abordar e abraçar, com lucidez visionária, questões tão diversas como a contra-cultura, o sincretismo religioso, a negritude, a valorização da informação cultural africana e oriental entre nós, a ecologia, a política, a tecnologia, o carnaval, a macrobiótica, a cultura pop, a ciência, a meditação, as relações familiares, as relações de amor e amizade, as relações sociais, as relações de trabalho, a ancestralidade, o mundo moderno e a consciência primitiva — em formas que transitam livremente entre o baião, o funk, o rock, o afoxé, o samba, o reggae e etc. e ao mesmo tempo sem ser nada disso; cumprindo apenas o sotaque particularíssimo de seu violão.
É assim que Gil foi construindo seu nicho de linguagem. Seria pouco apontar o quanto a moderna música popular do Brasil deve a ele tudo que conquistou em termos de construção, acabamento e atitude. Melhor notar o quanto nele se aprofundou a afinidade com a natureza da própria música. Pois não há como não pensar que essa reverência é uma condição dela; que a relação de qualquer um com a música é a de um ser receptivo. E por isso Gil é esse banho, essa aula, essa tradição viva; não pelo que fez, mas pelo que faz. Pela capacidade de manter potente sua linguagem, atualizando fisicamente o passado, a cada nova onda que ele espraia de seu convés, até banhar nossos pés, na praia.

Prefácio para o livro "Todas as letras", de Gilberto Gil,
organizado por Carlos Rennó, Cia. das Letras, 1996.

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