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Nando Reis
Arnaldo Antunes
08/2000

Release para o CD Pra quando o arco-íris encontrar o pote de ouro

Quem já se ligou nas composições do Nando, dentro ou fora dos Titãs, sabe o quanto é singular a sua maneira de entoar as palavras sobre o que as mãos desenham no violão, equilibrando com maestria a simplicidade e a estranheza em músicas como O homem cinza, O camelo e o dromedário, Isso pra mim é perfume, Diariamente, Seo zé, Ect ou Meu aniversário, entre muitas outras.
E quem ouviu o último disco de Cassia Eller, produzido por ele no ano passado, e ali desfrutou de músicas como O segundo sol, Meu mundo ficaria completo (com você), Infernal ou As coisas tão mais lindas, já sabe que ele vem de um momento especialmente fértil e inspirado.
É desse lugar que traz à luz agora esse Pra quando o arco-íris encontrar o pote de ouro, reafirmando a especificidade do seu modo de fazer canções e de cantá-las, de tocar violão e esboçar o som que deve envolvê-las.
Não à toa, o violão é muito bem ouvido nesse disco, funcionando como elemento de coesão da sua sonoridade. O recorte rítmico de suas levadas sendo tomado como eixo dos arranjos, que assim nunca se distanciam demais da semente da canção; da origem de sua feitura. Evidência que o aproxima de algumas canções de Bob Dylan, de Gil, de Benjor. O canto encaixando as palavras nas melodias com aquela precisão, como pedras em colares, uma após a outra, no fluxo bem articulado das sílabas com as batidas do violão.
Músicas pra serem cantadas com a boca cheia (de que outra forma se poderia dizer "escorre aos litros, o amor"?), furiosa (como em Pra quando encontrar o pote de ouro) ou serenamente (como em Relicário). Ou com a naturalidade de quem está com uma câmera filmando a paisagem que o cerca ou recheia, ou passa livre de dentro pra fora ligando e religando os circuitos entre ar e pele.
Versos longos, orações que se desdobram em outras, pensamentos movediços como em O vento noturno do verão — viagem que vai do passado ao futuro, da micro lembrança de uma ladeira subida ao macro giro do planeta no universo com seus mares e ares e árvores; engrenagens de corpos celestes e corpos humanos se encaixando há milhares de anos.
Uma das características mais marcantes do estilo do Nando é a maneira como ele desloca elementos materiais do cotidiano e acende sobre eles novas luzes, fazendo-os brilhar como sóis sobre o resto; imantando-os de qualidades sensíveis mais acentuadas.
Apertar o botão do elevador, usar com força uma caneta azul, subir uma ladeira, apoiar-se com as mãos na borda da piscina — Fatos assim corriqueiros Nando recorta, desterritorializa e usa como metáforas de sentimentos ou sensações. Dá a eles outra densidade emocional; substância nova para as superfícies de sempre.
Assim, objetos como o "all star azul", o "camelo lindo que enfeita o maço", o "guardanapo sujo que foi amassado", a "cor do esmalte" escolhida, os pés que "se espalham em fivela e sandália", a "cartilha" com "o A de que cor?" — eclodem como estilhaços de matéria real que ganham maior intensidade e intimidade para com quem ouve.
Talvez seja isso o que me comove tanto nesse disco e me faz ver, em seu perfil pop bem delineado, algo tão original.
Por sintetizar simplicidade e absurdo em imagens como a "colcha impecável" ou o "dia tão vertical", e expressar raciocínios intrincados como "porque eu só vi direito após vir o defeito eleito pr'uma imagem", com a mesma naturalidade e a mesma adequação melódica com que canta "porque eu te amo".
O sentimento amoroso, pendular entre dor e regozijo, ante presença ("ficar feliz, te ver feliz me faz bem") ou ausência ("o vão que trazem suas mãos / é só porque você não está comigo") da pessoa amada, permeia todo o disco. Suas muitas formas se interseccionam entre as faixas. Apazigua-se em Nosso amor, que pode ser lida tanto como uma versão sem nomes próprios da Quadrilha de Drummond, quanto como o amor do casal que se desdobra e multiplica nos filhos. E encontra na faixa título, Para quando encontrar o pote de ouro, seu momento mais pleno; potência capaz da espera, para a realização do impossível.
Durante a semana em que fiquei escutando o disco para escrever esse texto, suas músicas ficaram indo e vindo, acordava e ia dormir com elas na cabeça na veneta na imaginação e assim ainda estão rondando algum lugar indefinido de meu corpo ou consciência, se é que tem alguma diferença.
O que eu quero dizer é que esse não é um disco de se ouvir pouco. É inevitável que se conviva um tempo com ele, que ele fique atuando nas inúmeras camadas de emoções que recobrem outras emoções.
Alguém me disse um dia algo assim como: "por que será que sempre que eu vejo beleza eu acho parecido com tristeza?". E eu vejo um pouco disso aqui, no disco do Nando. Principalmente numa música linda como Relicário, "milhões de vasos sem nenhuma flor", fraturada ao meio pelo quinteto de cordas que a dissolve para deixá-la renascer depois qual fênix que finda o disco pra recomeçar de novo dizendo "é bom olhar pra trás".

agosto de 2000
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