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André Midani Unpluged
Arnaldo Antunes
Release do livro de André Midani: 2008

Sempre acreditei que qualquer pessoa pode ser um artista em seu ofício, talvez porque a natureza da arte venha menos do “o que” se faz e mais do “como” se faz algo. A lavadeira ensaboando as roupas no tanque, o guarda de trânsito acenando para os carros, a secretária batucando no teclado do computador — todos podem exercer suas atividades com a mesma intensidade que caracteriza o que chamamos de arte, apenas pela maneira de se entregarem a elas.

André Midani, em parte por seu convívio constante com os artistas da música popular, mas também certamente por um talento pessoal, soube cumprir com arte seu papel na indústria fonográfica (não faltando aqui os ingredientes de paixão, ousadia, intuição e inventividade).

Conheci André quando fui contratado, com os Titãs, pela WEA, que ele presidia no início dos anos 80. Causou-nos forte impressão aquele senhor elegante, falando baixinho com sotaque francês e extrema jovialidade, que se divertia conosco como se fizesse parte do nosso grupo, e ao mesmo tempo agia com austeridade nas decisões profissionais.

Nosso diálogo com ele, desde os primeiros encontros, foi sempre pautado pelo entusiasmo e pela crença conjunta no êxito do que estávamos produzindo, como se ele não estivesse apenas bancando, mas embarcando junto na aventura.

Mas essa cumplicidade para com os artistas com quem ele se relacionava não era algo recente. André esteve presente nos acontecimentos mais marcantes da nossa música popular durante quase toda a segunda metade do século XX. Acompanhando de perto, não só como espectador atento, mas também como agente ativo do que ocorria em seus bastidores, ajudou a viabilizar, às vezes em condições bastante adversas (como os exílios e censuras impostos aos artistas pela ditadura militar nos anos 60 e 70), o desabrochar de um período de feliz confluência entre sucesso de massas e qualidade artística.

E ele nos brinda agora com esse livro de memórias, onde relata sua convivência com várias gerações e gêneros de artistas do meio musical, preservando na escrita o saboroso tom de coloquialidade e conversa que as histórias tinham quando as transmitia oralmente.

Ficamos sabendo detalhes muito pouco conhecidos da gênese de canções, shows e discos que vieram a se tornar clássicos, ao passo em que acompanhamos um percurso de grandes mudanças numa indústria cultural ainda em formação.

Nesse contexto, coube a ele procurar soluções inovadoras — as experiências com vendas de discos a domicílio, nos moldes do que empresas como a Avon faziam com cosméticos na época; a criação de um circuito universitário de shows, para veicular a ainda nascente Bossa Nova; a formação de um grupo de pensadores de diversas áreas para formar um conselho consultivo, que se reunia com os artistas e opinava sobre as orientações da gravadora; a produção de grandes eventos reunindo todo o seu elenco, como o Phono 70. É surpreendente, por exemplo, a importância de sua atuação na concepção e realização de alguns dos encontros mais memoráveis entre grandes artistas, como Chico e Caetano, Gil e Jorge, Elis e Tom, entre tantos outros.

O trecho do livro em que André reflete sobre o inconsciente coletivo, intuição nascida do contato com o inesperado sucesso do cantor e compositor Orlando Dias, é revelador de como ele foi moldando seus critérios para compreender os resultados de uma canção para os ouvintes, em parâmetros paralelos aos de valor artístico dessas mesmas produções. Pois tinha que ter um olho nas vendas e outro no que prezava artisticamente. E o lugar onde encontrava esse ponto de equilíbrio só poderia ser o coração, como amante da música que se tornara, desde os tempos de Jammin’ the blues (filme que marcou sua memória ainda jovem, que buscou rever por dezenas de anos sem encontrar uma cópia e que hoje em dia pode-se ver no you tube).

Não é por acaso que André atuou numa fase em que a música brasileira conseguiu conjugar alta voltagem de linguagem e grande sucesso popular. Basta lembrar os nomes de Caymmi, João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powel, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Maria Bethânia, Jorge Benjor, Elis Regina, Paulinho da Viola, Hermeto Paschoal, Elza Soares, Gal Costa, Milton Nascimento, Raul Seixas, Mutantes, Rita Lee, Tomzé, Tim Maia, entre outros protagonistas das histórias deste livro.

Nós, que fizemos parte da última geração com a qual ele trabalhou diretamente, sentíamos a potência dessa tradição a nos impulsionar, na tentativa manter essa bola no alto.

Mas, para mim, uma de suas mais importantes lições, responsável em grande parte pela graça de se trabalhar com música, está em uma palavra que ele costumava repetir ante qualquer fato que o surpreendesse na área: “O imponderável, o imponderável...” Essa imprevisibilidade que pode fazer com que uma canção se torne repentinamente um fenômeno, sem esforço de marketing algum, ou que uma outra em que se depositou muito empenho e trabalho não aconteça como esperado. Por mais que se conheça o inconsciente coletivo, ele sempre pode surpreender.

André Midani Unpluged não é só uma auto-biografia, nem apenas o testemunho de histórias reveladoras do meio musical. É também uma reflexão sobre os modos de produção, veiculação e comercialização de música popular, e de suas transformações, do 78 rotações ao long-play, do vinil ao CD, do CD ao mp3.

Na última parte, quando André fala nas mudanças de mentalidade e estratégia que ocorreram na indústria fonográfica, no final dos anos 80, com a entrada em peso dos que ele chama de “tecnocratas” no comando das grandes empresas multinacionais, e com a mudança de foco, que passou a centrar-se mais na procura de hits imediatos do que na continuidade da obra dos artistas, dá para entender porque pessoas como ele faziam tanta falta no panorama das gravadoras a partir dos anos 90. Pessoas que cuidassem da música com a mesma paixão com que a produzíamos.

Digo isso não com saudosismo, mas com a esperança de que esse livro possa trazer alguma luz ao meio da indústria musical, de como merece ser tratada sua matéria-prima, nesses tempos digitais.
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