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Omara e Bethânia
Arnaldo Antunes
Livro “Omara e Bethânia - Cuba & Bahia”: 2008

A religiosidade. A sexualidade. O arrepio da música. A contundência e a doçura da presença negra nas Américas, com “seus mitos, suas legendas, seus encantamentos” (Joaquim Nabuco, via Caetano, em Noites do Norte). Forças primitivas emergem da reunião das vozes e tradições culturais de Maria Bethânia e Omara Portuondo.

As bandas de salsa e os grupos de samba, a santería e o candomblé, os trovadores del son e os cantadores de modas de viola — encontram-se aqui, como se matassem as saudades de um tempo perdido, mas guardado nas camadas subterrâneas do caráter dos dois povos.

Quando estive em Cuba, em 1997, fiquei impressionado com a vida nas ruas; a maneira como as pessoas ocupam as ruas (talvez por ter o seu espaço íntimo reduzido), como se elas fossem extensões de suas casas.

Lembro-me de ter pensado, na ocasião, que a rua parecia um quintal de todos; expressão que usei mais tarde na letra de uma música que fiz em parceria com Lenine (Rua de Passagem/ Trânsito, gravada por ele no disco Na Pressão, de 1999), onde dizia: “sem ter medo de andar na rua / porque a rua é o seu quintal”.

O jogo de bola, o namoro de portão, o bate-papo na soleira da porta, os encontros na praça, a correria das crianças, a vizinhança observando o movimento, cadeiras puxadas de dentro das casas para as calçadas no fim da tarde, pessoas se cumprimentando uma às outras, mesmo sem se conhecerem — costumes que pareciam com os de um Brasil de outro tempo e que, se desapareceram de nossos grandes centros urbanos, ainda hoje se mantém em pequenas vilas e cidades, como Santo Amaro da Purificação.

É que em Cuba esse passado se oferece incólume, pois o que há de abandono (devido principalmente ao isolamento imposto pelo embargo americano), resulta em preservação. Os carros, casas, prédios, praças e postes de iluminação antigos, apesar de deteriorados, mantém a feição de um tempo que teria se perdido, se tivessem sido restaurados, ou reconstruídos.

A referência a esse passado se acentua para nós, pelo fato do samba-canção dos anos 40 e 50, que moldou, em parte, a sensibilidade musical de Bethânia, ter dividido seu espaço, nas rádios brasileiras da época, com boleros, rumbas, salsas e mambos.

A música cubana, desde então, deixou marcas inconfundíveis na tradição da canção popular do Brasil — do piano de João Donato ao canto de Jamelão, dos bailes de gafieira aos boleros na voz Nelson Gonçalves, dos encontros de Pablo Milanés com Chico Buarque às canções de Bola de Nieve interpretadas por Caetano, da Timbalada a Carlito Marrón.

E esse disco parece celebrar essa comunhão de influências mútuas, não só entre os dois países, mas também, pela escolha do repertório, entre o rural e o urbano, o litoral e o interior, o moderno e o arcaico.

A economia dos arranjos, desnudando as vozes, que, por sua vez, desnudam as canções com suavidade e firmeza, explicitam ainda mais as afinidades epidérmicas que entrelaçam Brasil e Cuba, terras de mestiços que influenciaram o jazz e a música do mundo, num passado ainda muito presente.

Durante minha estadia de uma semana, entre Havana e Santiago, persegui a música cubana de muitas formas — em lojas de CDs, no Museu da Música, em apresentações ao vivo nas ruas. Mas meu anseio só foi saciado de verdade no último dia em que estive lá, quando me convidaram para ver um show, numa pequena boate chamada Café Concerto, no primeiro andar de um prédio, em frente à Plaza de la Revolución. A casa estava meio vazia, poucas mesas ocupadas. Era um show de Omara Portuondo com sua banda e, logo nas primeiras músicas, pensei satisfeito que era para ver/ouvir aquilo que eu tinha ido até ali.

A vertigem causada em mim pela apresentação de Omara, no Café Concerto de Havana, revolve sensações semelhantes às que experimentei quando, ainda adolescente, presenciei pela primeira vez um show de Bethânia.

Dez anos depois de ver Omara ao vivo, tão de perto, e mais de trinta depois ter assistido ao Rosa dos Ventos, tenho agora a felicidade de ouvi-las juntas, para reatar laços antigos ou derrubar fronteiras futuras.
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