Budismo moderno

Arnaldo Antunes / Augusto dos Anjos

Tome, Dr., essa tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contacto de bronca dextra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstracto das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!


© Melody Nelson Publishing / Melody Nelson Publishing

65667018, “Ninguém”, de Arnaldo Antunes, BMG, 1995
Budismo moderno
Ouça a música
em Ninguém, 1995 �udio